Quando o craque se aposenta

Eu sou corintiana desde pequena, mas amei o Corinthians de verdade desde a primeira vez que pude assistir um jogo de futebol.

O ano era 2008 e o Corinthians estava jogando a série B do campeonato brasileiro. Jogos mais tranquilos para que minha mãe finalmente autorizasse meu pai me levar ao estádio.

Fomos para o Pacaembu, local que adotamos como casa. O Corinthians já estava classificado para retornar para a primeira divisão e, mais, já era o campeão, mesmo ainda restando alguns jogos para terminar o campeonato.

O que aquela torcida alvinegra vibrou, cantou e torceu, mesmo em um jogo já ganho e em uma divisão inferior, me arrepiou. Aquilo me emocionou a ponto de eu amar com todas as minhas forças aquele time. A partir daquele momento eu não era Corinthians, eu amava o Corinthians.

Mas… Quanto do Corinthians existiria em mim se não fosse meu pai?

A resposta provavelmente seria: nada. Ou eu poderia simpatizar com esse time por ser também a torcida de toda a família da minha mãe. O certo é que amar o Corinthians foi legal porque meu pai também o amava.

Meu pai fazia chamada oral comigo aos 6 anos de idade da escalação do seu time do coração. Toda vez que eu acertava, ganhava um chocolate barato que vinha em um embrulho de bola de futebol. Para ele ter esse trabalho, com certeza aquilo era importante.

E se tornou parte muito importante da minha vida. Por anos eu fui devota a esse time, a esse amor que eu compartilhava com milhões de pessoas no mundo, dentre elas meu pai.

Meu pai me fez mochileira

Jogos da Copa do Mundo ou de outros times eu assistia fora de casa, com amigos, em bares. Jogos do Corinthians eu só assistia em casa. Meu pai em um sofá, eu no outro. Eu odiava ter que assistir o Coringão com outra pessoa. Ninguém entenderia aquele jogo como nós dois. Ninguém entenderia aquele jogo entre nós dois.

Quando minha mãe e meu irmão faleceram, esse vínculo estreitou ainda mais. Não falávamos sobre nossas perdas, comemorávamos nossos ganhos. Porque o Corinthians ali ganhava tudo. Em 2012 nenhum outro time teve chance, era tudo nosso.

Sobre super-heróis: Como minha mãe lidou com um filho com síndrome de Down

Claro, nos anos seguintes tudo foi desacelerando. Houve perdas horrorosas dentro de campo. Mas ainda era intenso e, mais do que isso, ainda era legal assistir futebol e amar o Corinthians. Era um amor que nunca iria acabar. Quase o tatuei no corpo.

Mas… quem soube da Juliana dessa época até estranha hoje. Quem sabe da Juliana após 2015, estranha esse texto. Corinthians? Você gosta de futebol, Ju? Você não gosta mais do Corinthians? Como assim VOCÊ não tem assistido aos jogos?

Como eu disse, o Corinthians, da forma que existiu em mim, não existiria sem meu pai. Esse amor também seria insuportável de manter sem ele. E foi.

No começo, eu assistia aos jogos sozinha. Mas sempre virava para o lado para fazer algum comentário. Não tinha ninguém. Tentei assistir com alguns amigos, mas, por mais fanáticos pelo Corinthians que eles fossem, eles não entenderiam.

O laço entre uma filha e seu pai criados pelo futebol é singular. Insubstituível.

Os planos que não dão certo também são lutos que precisamos viver

Nunca soubemos entrar no campo emocional um com o outro, mas conseguíamos exalar um amor imenso e intenso juntos ao levar o foco para o futebol. Era uma forma de compartilharmos o amor, mesmo sendo desajeitados nas emoções. Era uma forma de nos abraçarmos e nos olharmos nos olhos.

E a gente sabia que aquilo ali seria para sempre. O Corinthians era para sempre.

Mas meu pai, enquanto um corpo físico, não foi. Ele parou e eu tive que prosseguir. Prosseguir carregando todo aquele amor que a gente compartilhava.

Mas era pesado segurar um amor desse, tão grande, sozinha. Uma hora era preciso deixar esse amor pelo caminho também.

Quando morre um irmão

E, desde sua morte, eu nunca mais tive vontade de amar o Corinthians como antes. Ainda sou corintiana, vejo um jogo ou outro quando está passando em algum lugar que estou, mas não consigo me tornar aquela pessoa febril e fervorosa por este time como antes.

Porque o futebol também é como o amor, não dá para torcer sozinho. Ou pelo menos, não tem a menor graça.

E embora o Corinthians seja uma das maiores torcidas do mundo e eu até tenha com quem torcer e sofrer junto, nenhuma delas fazia diferença no meu amor por este time como meu pai. Todo o resto era um grande agregado. Meu pai é que dava sentido para este amor viver.

Foi muito incrível ser corintiana, até hoje eu adoro e torço em silêncio.

Mas só foi incrível porque foi com meu pai.

A torcida naquele jogo em 2008 me cativou e me fez assinar a carteirinha de fã do Corinthians. Mas não era a torcida que eu abraçava, não era a torcida que eu queria escutar após cada jogo ou cada contratação. A torcida só era uma parte que fazia tudo ainda mais legal.

O incrível era fazer de algo trivial, a melhor coisa do mundo junto com o meu pai.

Eu precisava que ele me ajudasse a amar o Corinthians, a amar o futebol. Acho que certas coisas existem para que vínculos entre pais e filhos, pais e filhas possam se alargar. E quando uma das partes aposenta suas chuteiras, fica difícil revisitar aquele campo.

Algumas coisas são grandes demais para a gente amar sozinha.

Juliana Saueia

Juliana é atriz, escritora e bacharel em Direito. Vive com os pés na estrada e a cabeça em outros planetas.

Você pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *