Como foi viajar sozinha pelo Pará?

Viajar sozinha pelo Pará

Bora entender como foi viajar sozinha pelo Pará?

“Mulher viajando sozinha”, isso ainda consegue chocar os outros. Isso ainda causa medo em nós, do sexo feminino. Eu gosto muito de estar sozinha, tanto no meu dia a dia em São Paulo, quanto viajando.

Nem viajo sozinha por falta de companhia (às vezes acontece mas não é meu principal motivo), viajo dessa forma porque eu gosto, porque eu preciso. Ter um tempo só meu, longe de casa, longe de todos que me conhecem, que sabem da minha história, que me cobram o tempo inteiro para ser a pessoa que eu tenho que ser, é minha válvula de escape.

Muitas vezes eu não aviso que vou viajar, só apareço em algum destino. Tem viagens que eu planejo para ser uma viagem sem acompanhante. Elas só fazem sentido para a minha história se eu for sozinha.

E foi assim quando pensei em visitar o Pará.

Eu tinha um motivo: show de Sandy e Junior (me julguem!). Foi esse o impulso que me levou para uma jornada muito linda na minha vida. Eu queria ir no show deles, mas até então não tinha conseguido ingresso para o show de São Paulo. E alguma coisinha dentro de mim pensou: porque não ir no show deles em um destino que eu nem havia pensado em conhecer, e assim, explorá-lo?

Nos primeiros minutos de pesquisa sobre as cidades do Pará, o que eu poderia conhecer, onde eu poderia ir, já comecei a sentir algo incrível pulsando dentro de mim. Eu tinha a sensação de que seria uma viagem ótima.

E desse sentimento, veio a certeza de que eu precisava fazê-la sozinha. Porque eu gostava de ser assim, porque eu queria viver dessa forma aquele momento. Fazia sentido para mim realizar essa viagem somente em minha companhia. Assim como outras que já tinha feito antes.

Esse não é um texto sobre viajar sozinha pela primeira vez. É um texto sobre escolher viajar sozinha, mais uma vez, agora para o Estado do Pará.

SE QUISER, VOCÊ PODE IR DIRETO AO PONTO DE TEU INTERESSE, NAVEGANDO PELOS TÍTULOS:

_Como foi viajar sozinha pelo Pará?

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_Intuição

_Planejamento

_Mochila

_Estar sozinha

_Viajar não é fuga

_Não ficar sozinha

_Restaurantes

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Mas e aí, como foi viajar sozinha pelo Pará?

Foi tudo, menos solitário. Dos 20 dias que passei entre o Pará e o Amapá (já que estava ali pertinho, dei uma escapulida pro Estado vizinho), em apenas 06 eu fiquei totalmente “sozinha”.

o que fazer em algodoal

Eu reservei apenas hostels para me hospedar, porque seria mais barato mesmo. E estando num hostel, a coisa mais fácil é conhecer pessoas (e olha que eu não sou fácil de iniciar conversas).

Quando se está sozinha numa viagem, geralmente ficamos muito mais abertas para que novas pessoas cheguem até nós. Afinal, não temos ninguém para nos ancorar. Viajar com um amigo ou um grupo de amigos pode nos deixar menos acessíveis.

Não que não façamos novas amizades quando estamos com nossos amigos, apenas a abertura pra outra pessoa chegar pode ser um pouquinho menor.

Só sei que tudo fluiu perfeitamente. E conheci pessoas que condiziam demais com meus princípios, ainda que fossem personalidades diferentes, eram sempre pessoas que me acrescentavam algo, mesmo que fosse apenas uma boa risada (o que já é tanto).

Fiquei tão rodeada de pessoas que em um momento eu até quis alugar uma diária num Airbnb apenas para mim, para “fugir” das pessoas e ter somente a minha companhia.

Nesse dia, inclusive, passei o dia todo no apartamento que reservei, apenas assistindo televisão, dormindo e pedindo comida. Não é porque a gente está numa viagem que precisamos ter o máximo de atividades em um só dia durante todos os dias da viagem.

Claro que essa premissa faz mais sentido quando se viaja por 15 dias ou mais. Talvez numa viagem de final de semana não seja tão cabível assim.

Mas o que quero dizer com isso é que não importa quantos check-ins em pontos turísticos você faz num só dia da viagem, mas sim o quanto você aproveitou da maneira que quis e que sentiu vontade.

Falo mais sobre esse tópico no texto O que eu descobri no Pará.

o que fazer em belem do para em 3 dias

Segurança

Um casal viajante australiano lançou o Women’s Danger Index, listando os países mais e menos seguros do mundo para uma mulher viajar sozinha, utilizando dados do Gallup World Pool, da UN Women, do Instituto George Town e do Fórum Econômico Mundial.

Nessa lista o Brasil recebeu nota D- e a África do Sul F, sendo os destinos menos seguros para uma mulher viajar sozinha. Se quiser saber mais sobre o assunto, veja a matéria da Revista Casa e Jardim.

Ainda assim, com essa mídia negativa, eu amo viajar pelo nosso país e sozinha. Não tem como dizer que nunca houve um momento ou uma sensação ruim, de medo paralisante. Mas foram poucas, na minha experiência pessoal.

Eu me cuido, eu presto atenção onde vou e sigo muito a minha intuição. Se algo não está me agradando, eu não forço. Todos os cuidados que eu tenho em casa, eu tenho em todo lugar que vou. Claro que sozinha em uma cidade até então desconhecida dá um pouco mais de receio.

E a viagem ao Pará, especificamente, foi incrível. Eu priorizo viajar pelo nosso país e todo lugar que eu fui, consegui conhecer e aproveitar muito.

Não estou dizendo isso, fingindo que nada de ruim acontece, porque acontece. Mas não acredito que seja um perigo do qual nos impeça de sair pra qualquer lugar sozinhas.

Infelizmente o perigo muitas vezes está dentro de nossas próprias casas, faculdades, templos, empregos e etc. Estar viajando sozinha não é sinônimo de se colocar em uma situação arriscada.

o que fazer na ilha de marajó

Mas falando das minhas experiências no Pará:

Em Belém, quando fui pegar o barco para a Ilha de Marajó, fui abordada por um taxista que me perguntava para onde eu iria, oferecendo seu serviço. Isso é comum em muitos lugares. O problema foi que, provavelmente por me ver sozinha, ele achou que poderia ficar pegando no meu braço e me alisando. Foi mega constrangedor e eu apenas me esquivei e fui para o embarque.

– Também em Belém, ao sair de um restaurante, eu estava sozinha e ia pedir um Uber para uma balada. Na porta do local, dois moços me pedem pra solicitar o carro pelo aplicativo de dentro do restaurante, e não da rua, pois havia acabado de acontecer um assalto ali.

– Em Alter do Chão, eu e um colega estávamos na Ilha do Amor, nossas mochilas ao lado. Fomos tirar foto do pôr do sol e quando olhamos, a mochila do meu amigo havia desaparecido. Ele correu por todo canto, mas não conseguiu recuperá-la.

– Voltando de uma lanchonete à noite em Alter do Chão, sozinha, por uma rua de iluminação fraca, um homem que vinha na direção contrária me aborda pedindo informação. Eu continuei andando e falei que não sabia lhe dizer sobre o que perguntou. Ele começou a vir em minha direção. Não sei se foi instinto ou um medo absurdo que assola toda mulher, mas naquela situação, eu comecei a correr em direção ao hostel, que ficava há uma quadra de onde eu estava.

Todas essas situações são, infelizmente, coisas que independem de estarmos viajando ou estarmos no bairro de nossa casa, chegando sozinha a noite depois do trabalho.

Intuição

Claro que nem só de intuição podemos viver. Porém, eu não desmereço esse poder sensorial que temos, de maneira alguma.

Foi minha intuição que me mandou correr naquele momento em Alter do Chão. Poderia ser um homem apenas perdido, precisando realmente de ajuda para se localizar, mas algo em mim pediu para não pagar para ver. Uma voz interior me disse “Corre!” e eu corri. E não me arrependo.

Da mesma forma, foi minha intuição que me deu coragem para entrar na Casa do Carimbó, na Vila de Fortalezinha, onde só tinham homens ali, e me fez ter uma das melhores conversas de toda a viagem.

Como me planejei para viajar sozinha pelo Pará?

Quando eu viajo sozinha acabo me planejando muito mais do que estando acompanhada de alguém. Afinal, não tem ninguém para dividir os perrengues, as contas ou opiniões para tomar decisões.

Nessa viagem específica, eu não decidi que viajaria por conta de uma cidade ou qualquer destino turístico. Eu planejei tudo em cima do show de Sandy e Junior haha!

Como o show seria na capital, Belém, e de lá também eu teria mais opções de voos saindo de São Paulo, com certeza ela entraria na minha lista. Depois fui ver quais outras cidades interessantes eu poderia visitar e como chegar em cada local.

Até acho bacana deixar as coisas fluírem, porém, estando sozinha, eu precisava me precaver melhor. Ter noção de como chegar nos locais é algo básico para eu não ficar muito perdida rodando igual barata tonta e nem perder tempo (e muitas vezes dinheiro).

Ainda mais no Pará, que muitas travessias são de barco, pois, como já dizia Fafá de Belém: esse rio é minha rua.

Queria incluir Alter do Chão na viagem, mas a ida de barco de Belém até lá demorava alguns dias. Optei por ir de avião mesmo, pois não tinha os dias necessários para essa viagem de barco. Gastei um pouco a mais, mas não sabia quando poderia voltar ao Pará.

Quanto à hospedagem, reservei um hostel no meu primeiro dia em Belém, para chegar de forma mais tranquila. Fiz parceria com o hostel da Ilha de Marajó e de Alter do Chão. O resto fui sentindo na viagem, de acordo com minhas necessidades.

Isso foi bom, afinal, quando quis um cantinho só meu, reservei um apartamento e não precisei ter dor de cabeça com cancelamentos.

Claro, poderia correr o risco dos locais que mais se adequassem à mim, estarem lotados. Isso também pesquisei antes: a época que eu estava indo. Sabia que Belém não estaria tão cheia, pois era um mês antes do Círio de Nazaré, época em a cidade fica realmente lotada.

Sabia que Alter do Chão estaria começando a esvaziar, ainda que estivesse cheia, porque eu chegaria lá no dia que terminava a Festa do Sairé, tradicional da cidade e que também levava muitos turistas pra lá.

Vi também o mapa de cada cidade e li vários blogs diferentes sobre todos os destinos. Havia colocado mais cidades no meu roteiro, mas precisei desapegar delas porque não teria tempo hábil para me locomover dentro do período de minha viagem.

Preparando a mochila para viajar sozinha pelo Pará

Depois que decidi previamente as cidades que eu iria visitar, pude preparar meu mochilão.

Eu prefiro fazer as viagens sozinha de mochila, mas isso é gosto e não regra. De qualquer forma, eu sabia que não seria bom levar meu guarda-roupa inteiro, afinal, eu iria andar debaixo de um sol quente com minha mochila pra lá e pra cá e também eu só teria a mim mesma para cuidar dos meus pertences. Por exemplo: se fosse ao banheiro dentro de um terminal de ônibus ou hidroviário, precisaria levar minha bagagem junto comigo, pois não teria um amigo para olhar minha coisas e revezarmos.

Como no Pará o clima é quente o ano todo, foi mais fácil. Afinal, roupas de verão não pesam tanto como as de inverno. Basicamente eu levei uma calça jeans – que eu vestia para ir e voltar dos aeroportos -, uma calça legging, dois casacos leves (um eu esqueci no carro de minha amiga no Amapá) e o resto blusinhas, shorts, biquínis, vestidos e saias.

Como eu achei que não iria fazer trilhas no Pará, não levei bota ou tênis apropriado – fui com meu bom e velho all star. E foi esse calçado que aguentou os 11km de trilha na Flona, um passeio feito a partir de Alter do Chão.

Mas de qualquer forma, eu não teria levado outro calçado só para essa única trilha. Seria um peso a mais, para usar apenas um dia. Além do all star, levei um chinelo. E foram esses dois calçados que me acompanharam pelos meus 20 dias de viagem.

Estar sozinha

Como eu mencionei lá em cima, fiquei poucos dias sozinha, curtindo somente a minha própria companhia. Esses dias foram durante minha passagem pela Ilha de Maiandeua, que estava vazia, portanto com poucas pessoas para interagir, no meu dia na Ilha do Combu e quando aluguei um Airbnb em Belém.

Nas Vilas de Algodoal e Fortalezinha, que ficam na Ilha de Maiandeua, consegui avançar vários capítulos do livro que eu havia levado para me acompanhar na viagem, pude escrever no meu caderninho no meu longo dia na praia e fiquei conversando comigo mesma dentro da minha cabeça.

Inclusive em Algodoal eu pegava meus dias para caminhar sem pressa pela areia da praia. Ela tinha uma extensão muito grande e o caminho até a praia mais famosa, a da Princesa, era um pouco longo.

Algumas pessoas até utilizam charrete, mas aproveitei a minha presença “só”, para curtir cada passo, cada paisagem (que na verdade é a mesma sempre) até chegar na praia. Fui me curtindo e em determinado momento, com a praia vazia pelo caminho até a Praia da Princesa, eu, com meus fones no ouvido, comecei a dançar no meio do trajeto.

Geralmente quando viajo sozinha não fico querendo tirar uma baita lição de autoconhecimento, mas no Pará foi diferente. Ele reverberou muito em mim e mesmo sem querer, me vinham muitas revelações sobre a minha vida e minha personalidade.

Na Ilha do Combu, que fica em Belém, também passei o dia todo sozinha por lá. Só falei com as garçonetes, fazendo meus pedidos de comida e bebida, mais nada. Ali também escrevi muito no meu caderninho, enquanto observava a cidade de Belém do outro lado do rio.

No restaurante Saldosa Maloca e Belém, ao fundo

Já a minha decisão de sair do hostel que eu estava e ir para um Airbnb foi justamente porque eu precisava ficar sozinha e não estava encontrando espaço pra isso. Mesmo viajando sozinha! No hostel as meninas do quarto sempre conversavam muito comigo e me acompanhavam em vários roles.

Eu queria dar um tempo de ver outras pessoas. Daí tive a ideia de alugar um apartamento inteiro. E fiquei lá por dois dias. Com celular desligado, assistindo um monte de filme na televisão e pedindo comida por aplicativo, para não precisar sair mesmo.

Foi ótimo, me senti tão bem em dar esse tempo só para mim. Não para ficar pensando em como evoluir como pessoa, nas experiências da vida e da viagem. Um tempo apenas para desligar e não ter que fazer nada.

Viajar não significa estar feliz e se divertindo o tempo inteiro

A viagem pelo Pará foi uma das melhores da minha vida, me diverti demais, me senti brasileira como nunca antes, conheci lugares lindos e tive experiências lindas. Tudo isso sozinha, como eu gosto, muitas vezes.

Porém, viajar não significa deixar nossos problemas e monstros de lado. Viajar não é fuga, principalmente quando nossas questões a serem resolvidas estão dentro da gente. Elas vão nos acompanhar, seja em casa, seja do outro lado do mundo. Não tem como fugir da gente mesmo.

No meio da viagem minha energia baixou. Eu estava feliz, não se engane. O Pará me ensinou coisas que eu achava que entendia, mas não sabia era nada.

Porém, em um determinado momento eu não estava em minha melhor forma mental. A espiral de pensamentos inseguros sobre a minha pessoa, havia voltado. Do nada. Enquanto eu fazia algo que estava sendo incrível para mim. Enquanto eu estava longe de tudo que poderia ser um gatilho na minha vida.

Porque um dos meus gatilhos, sou eu mesma.

Podemos sair daquela casa, daquela cidade, daquele país, mas não podemos sair de nossas mentes. Ali, sozinha, aparentemente longe de tudo e todos que me faziam mal naquela época, eu continuava pensando em suicídio.

Por mais longe que eu estava de casa e de todas as pessoas que me conhecem, eu estava vivendo comigo 24 horas por dia. E viver com a Juliana é uma montanha-russa. E nem sempre eu estou afim de embarcar numa montanha-russa.

Viajar sozinha e não ficar sozinha

Eu nunca me considerei uma pessoa fácil de fazer amizade, sou muito insegura em como abordar outras pessoas, odeio invadir o espaço pessoal do outro.

Porém, também não sou alguém que vive de cara fechada e se alguém me dá alguma abertura, eu vou entrando devagarinho.

Nessa viagem pelo Pará, em especial, foi a que mais fiz amizades. E com pessoas incríveis demais, foi delicioso.

Conheci a Joyce, namorada de um amigo meu de São Paulo, que mora em Belém, e saímos por duas vezes. Uma para dançar Carimbó (meu amor eterno por esse ritmo musical) e outra para uma boate LGBTQIA+.

Fiz amizades pela internet no grupo do show de Sandy e Junior com mais duas pessoas que iriam sozinhas para o show, a Claudia e o Max. E no hostel que eu estava, conheci mais uma menina que iria para o show, a Lara, que por sua vez, conhecia mais outras duas que também iriam curtir a dupla.

No fim fomos em um grande número aproveitar Sandy e Junior, e foi tão especial! Choramos, cantamos abraçadas, rimos muito e acabamos a noite em uma hamburgueria.

Nesse mesmo hostel conheci uma cearense, a Palloma, que estava morando por lá havia um mês, pois estava rodando o Brasil com um projeto de fotografia. Ela era muito comunicativa e assim que cheguei já foi logo conversando e falando da vida. Me deu abertura e eu também contei muito sobre mim. Acabamos trocando muitas confissões e ela virou um rosto praticamente familiar para mim.

Na Ilha do Marajó, o Sérgio, dono do hostel, seu irmão e sua cunhada, logo de cara já se tornaram amigos meus, com quem conversei tanto. Ouvia suas histórias de meninos criados na ilha, as lendas de lá, que me fizeram sentir medo de não gostar tanto do resto do Pará, como gostei do Marajó, por conta do carinho que tive por eles.

Por mim ficaria mais uma semana além da que fiquei, ali no Marajó, dentro do hostel mesmo, deitada na rede só conversando com eles e fazendo carinho no Jambu, o cachorro do Sérgio, mega carente.

No Tucupi Hostel chegou um rapaz no dia seguinte ao que cheguei, o Rafael, e ele se tornou um companheiro meu ali no Marajó. Fizemos vários passeios juntos, dividimos um mesmo moto-táxi para Salvaterra, a cidade vizinha da que estávamos, numa praia mega longe, que não chegava nunca, no banco mega desconfortável da moto.

Também fomos passear de bicicleta com outros três hóspedes do hostel até uma praia em Soure, onde tivemos um dia mega gostoso e no final todo mundo acabou se perdendo numa busca incessante pelo açaí raiz do Norte do Brasil.

Um dos dias fui fazer um passeio sozinha de barco pelo mangue, porém um casal carioca decidiu se juntar à mim e ficamos o dia todo juntos. A mulher inclusive, não parava de tirar fotos de mim.

Conforme os dias passaram, o hostel ficou lotado e fomos todos juntos curtir uma roda de Carimbó, onde eu me soltei e dancei muito, mesmo sem saber dançar. Parecia que todos éramos um.

Foi um dos dias mais especiais da viagem, me senti tão livre, apenas por dançar. Eu percebo que às vezes quando estou com amigos antigos em algum lugar assim, eu me retenho e espero para ver se eles vão ter iniciativa de dançar ou fazer o que quer que seja. Sozinha, com os queridos desconhecidos, eu não tinha amarras.

Voltamos praticamente todos no mesmo dia para Belém, da Ilha do Marajó. Eu e mais dois colegas aproveitamos que ainda tínhamos o dia todo pelo Pará, para visitar alguns pontos turísticos juntos e tive um dos dias mais engraçados, com pessoas divertidíssimas.

Já em Alter do Chão, reencontrei o Rafa. Ele estava em outro hostel, mas conseguimos curtir um dia juntos na praia.

No primeiro passeio de barco que fiz em Alter, já conheci pessoas incríveis, que fizeram a trilha de 11km na Flona super gostosa e divertida de atravessar. Uma delas, a Vanessa (carioca), foi a que mais me conectei ali, nos demos super bem e fizemos um outro passeio de barco juntas no dia seguinte, com um casal sulista que se juntou à gente.

Lá no hostel de Alter, o Don Preguiça, conheci alguns voluntários que estavam trocando trabalho por hospedagem lá. A Paula, uma palhaça da alegria paulistana super good vibes, a Marcela, uma viajante do mundo que eu passei todo o meu último dia da viagem dentro do hostel conversando com ela e me indicou uma astróloga maravilhosa, e a Marlene, uma mulher forte, guerreira, que decidiu durante aqueles dias, comprar o hostel e se mudar de vez pra Alter.

Na Ilha de Maiandeua, mesmo sozinha de fato, ainda tive aquele insight de entrar na Casa do Carimbó e conhecer os quatro rapazes que me proporcionaram uma conversa filosófica magnífica.

Esses citados aqui foram as pessoas que me marcaram, que eu tive uma aproximação maior. No caminho também aparecem algumas outras pessoas que a gente troca ideia mais rápida no quarto do hostel, mas não se conecta. E tudo bem, não é porque estamos num ambiente compartilhado, que todas as pessoas farão sentido no nosso caminho.

Restaurantes

Muito dificilmente eu vou em algum lugar chique comer. Primeiro porque na maioria das vezes eu prefiro economizar na comida, segundo porque nem me sinto a vontade em lugares assim.

Quando decido comer algo local não precisa ser em um mega restaurante, com sei lá quantas estrelas Michelin. Muitas vezes os melhores pratos da gastronomia local, são lugares até mesmo bem simples.

Durante essa viagem pelo Pará, comi em vários tipos de estabelecimentos: restaurantes, barraquinhas, lanchonetes, quiosques, cafés e até mesmo pedi comida por aplicativo. Variou muito do meu humor.

Todas as vezes que sentei para comer sozinha, não senti olhares estranhos. Falo isso, porque às vezes rola sim, principalmente em restaurantes mais sofisticados é comum perguntarem com estranheza se estamos esperando por mais alguém, quando chegamos sozinhas.

O único lugar que talvez tenha sido um pouco mais embaraçoso, foi na Ilha do Combu.

Quando cheguei no restaurante, ele estava vazio e senti uma paz em poder sentar, pedir um suco e escrever, pensando na vida.

Depois de um tempo começou a lotar e as mesas ao meu redor foram tomadas por muitos grupos de amigos e familiares com conversas altas. Isso me fez perder um pouco a linha de raciocínio do que estava escrevendo e acabei querendo ir embora dali mais rápido.

Passeios

Uma preocupação que vem a tona também quando se viaja sozinha, são os passeios. Afinal, muitos são caros para uma pessoa só pagar ou então só saem com um determinado número de pessoas.

Eu gosto de fazer minhas coisas no meu ritmo, por isso são poucas as vezes que busco agência. No caso, somente em Alter do Chão tive que me preocupar mais com isso, pois lá são barqueiros que só saem para os passeios quando preenchem as vagas necessárias.

Assim que cheguei em Alter fui na Associação dos barqueiros para entender melhor como funcionava, já que estava sozinha e precisaria me encaixar em algum grupo já fechado.

Eles me disseram para chegar cedo no local de embarque no dia seguinte e ver se haveria algum grupo disponível saindo (geralmente tem sim, mas poderia ser que para o lugar que eu gostaria, não tivesse).

Voltando para o hostel, conversei com um dos voluntários e ele me disse que eles fechavam grupos lá dentro do hostel mesmo para os passeios. Foi bem melhor para mim!

dicas de viagem para alter do chao

A verdade é que eles já estão acostumados com viajantes solos e essa prática é até bem comum em muitos lugares. Muitos hostels fornecem passeios ou fecham grupos com seus hóspedes.

Na Ilha do Combu também foi algo um pouquinho mais complicado (nada que tirasse o sorriso do rosto, mas devo pontuar aqui pra vocês). Para ir até ela foi tranquilo, peguei um barco com outras pessoas, afinal, todos pegamos no mesmo lugar.

O probleminha foi que ao sair do restaurante que eu estava, não queria retornar para o centro de Belém. Queria, antes, visitar uma loja de chocolates famosa que existe um pouco mais pra dentro da ilha. A maioria dos barcos que passavam, ou estavam indo de volta à Belém ou estavam com grupos fechados (pois pode-se contratar um barco e barqueiro para ficar à sua disposição).

Fiquei um tempo lá aguardando passar algum barco que iria para onde eu queria e estava quase desistindo quando um grupo fechado, mas com lugar vago no barco, disse que estava indo para o local do chocolate e me ofereceram “carona”.

Na Ilha do Marajó fiz um passeio com um moto-táxi me guiando (aliás, por lá as motos dominam!) e um passeio de barco pelo igarapé que seria sozinha, mas um casal decidiu se juntar à mim.

Em Algodoal, para chegar na Vila de Fortalezinha eu tinha três opções: andar (mas era mega longe e debaixo de um solão), contratar um barco para me levar direto (mas esse era mega caro para eu pagar sozinha) ou então ir até uma outra vila de barco, de lá pegar uma moto-táxi e depois uma rabeta para a praia de Fortalezinha. Um role maior, mas que era mais barato.

De resto fiz tudo por conta própria, como prefiro. Assim posso impor meu ritmo e o que realmente quero visitar. Como já disse lá pra cima, até mesmo ditar se quero conhecer alguma coisa ou ficar quieta no meu canto.

Fotos

Fazer amizades e passear com a galera do hostel, por exemplo, ajuda bastante nesse quesito, quando eu quero uma foto mais bonitinha, porque posso pedir pra pessoa tirar mais uma fotografia caso eu não goste da primeira sem culpa de estar enchendo o saco de um desconhecido.

Mas quando não tem jeito, quero tirar uma foto que pegue todo o cenário, eu espero passar alguma pessoa e peço para ela. Se eu não gostar, espero mais um pouco e peço para outra pessoa. E depois dou meu toque com a edição.

Claro que sempre vão haver aquelas fotos bem estranhas.

Quando vejo algum turista, já vou logo me oferecendo pra tirar fotos do grupo todo ou do casal, e em seguida eles se oferecem para tirar uma minha também. Praticamente sempre dá certo.

Há as selfies também. Não fujo delas, principalmente viajando sozinha, mas não curto muito. Eu não tenho tripés e utilizo bem pouco do temporizador do celular.

E se uma foto não ficou como eu queria, eu tento deixá-la o mais próximo do meu gosto na edição. E vida que segue, afinal, as pessoas não tem que saber regras de fotografia só porque eu quero né?

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4 Comentários

  1. Que delícia ler esse relato.
    Faz um tempo que não viajo sozinha. Tive duas experiências incríveis: Santiago/Chile(2015) e Montevideo/ Uruguai (2016). Viajei só, mas em nenhum momento me senti sozinha. Conheci pessoas que até hoje são minhas amigas.
    O Pará está na minha lista há muito tempo, mas sempre aparecia algum impedimento (na verdade eu acho que estava me sabotando). Ler histórias de mulheres que viajam sozinhas me dá uma inspiração tremenda!
    Obrigada por compartilhar <3

    1. Ah, muito obrigada! Viajei em 2016 também sozinha pelo Uruguai, junto com o Pará, foi uma das minhas melhores viagens e fiz uma amigona pra vida! Tão bom né?

      Poxa, assim que pudermos voltar a viajar em segurança, coloque sim o Pará em sua lista, é um destino que surpreende muito. Voa <3

  2. Juuuuuuu…
    Quando conversamos pelo telefone e você me contou o propósito da sua viagem … ali já identifiquei que você era o perfil que curtimos receber, pois aqui pelo @TucupiHostel a maioria do público são mulheres viajantes desbravando a Amazonia e nos deixa feliz poder oferecer um lugar tranquilo e seguro, e todas as nossas conversas e risadas foram mais que gratificantes … E agora você precisa voltar para conhecer a Brisa, a nova companheira do Jambu.
    Bjaum e lendo deu muitas sdds sua Linda!!!

    Por aqui estamos fechados desde março, sem previsão de reabertura … falando pelo Tucupi, pois enquanto não for seguro para a saude de todos, estaremos fechados!!!

    1. Sérgiooooo, querido <3 Eu me senti tão em casa aí no Tucupi Hostel, sempre sinto tanta saudades!!!

      Realmente aí é um local onde nós mulheres viajantes solos nos sentimos muito acolhidas. Foi assim que eu me senti. Espero em breve poder retornar, que todo esse momento tenha um fim, com muita responsabilidade e segurança. Acho sua atitude de manter as portas fechadas muito sensata. Você é incrível de tantas maneiras.

      Grande beijo, até breve!

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