Sobre um espírito livre: AURORA

Já escrevi aqui sobre minha mãe e meu irmão, um pouco sobre meu pai também, mas nunca contei sobre outra pessoa que foi embora desse mundo naquele acidente de carro em 2011 e que era, sem sombra de dúvidas e até o hoje, a pessoa mais espírito livre que eu já conheci: minha avó materna Aurora.

Embora sempre a admirasse não me espelhava diretamente nela, mas talvez seja com ela que eu mais me pareça hoje em dia. Quando eu a conheci nesse mundo ela já era viúva e eu nunca pude entrar em contato com seu lado mais conservador, nunca a vi como a esposa de meu avô (que eu nunca conheci) e acredito que isso tenha sido a melhor coisa que aconteceu em nossa relação. Ela era muito desapegada, tinha alguns momentos sensíveis porque acho que todos a viam como um ser tão alto astral e zero possessividade em sua trajetória, que esqueciam que ela também tinha sentimentos. Isso não quer dizer que os outros não a amaram ou a idolatraram, pelo contrário, ela era tão especial, tão alegre e carismática que ficava impossível não amá-la, todos a queriam por perto.

Ela nunca foi uma avó de livros e filmes, dessas que gosta de ficar em casa e cozinhar para a família. Pelo contrário, era impossível encontrá-la dentro de casa e quando marcávamos de almoçar, ela nos esperava na porta de seu prédio para irmos comer em algum restaurante, assim ela não precisava cozinhar. Ela viajava muito, conheceu muitos lugares depois que meu avô faleceu e não esperava ninguém para ir junto não, e acredito que se não fosse tão viciada em bingo, teria conhecido muitos outros lugares. Afinal, ela não perdia uma partida do jogo, ia para qualquer cidade na esperança de gritar BINGO. E ia dirigindo! 77 anos e a mulher ainda pegava seu Uno e sumia. Às vezes também ia de ônibus porque “Eu não pago mesmo, posso ir pra onde quiser”.

Para mim nada associa mais a Dona Aurora do que o carnaval, pois ela era alegre, amava dançar, brincar, fazer pegadinhas (uma vez jogou balde de água gelada em mim na cama porque eu estava demorando pra levantar), contar piadas e era muito colorida (não saia de casa sem seus colares e maquiagens – inclusive dizia que eu não era muito mulher por não passar batom e não usar brincos).

Ela amava teatro e foi a minha maior e, no começo, única incentivadora para seguir nessa arte. Minha mãe não tinha condições de bancar meu sonho e mesmo que pudesse não sei se faria esse investimento, mas minha avó, que também teve esse sonho em sua juventude, tomou as rédeas da situação e disse sim para meu coração. Quando todos olhavam torto, ela depositou toda sua confiança e fez dos meus sonhos os dela, sendo minha salvadora quando me diziam que era besteira seguir por aquele caminho. E era a melhor coisa do mundo vê-la na plateia. A primeira vez que entrei no palco após sua morte, não acreditava que iria conseguir. Eu dava o texto, mas meu pensamento era todo voltado pra ela. Porque por mais pé no chão que minha avó fosse, não tinha um sonho meu que ela não fosse capaz de me ajudar a voar para alcançá-lo.

Dona Aurora era desapegada demais, já disse, mas ao mesmo tempo me ligava de hora em hora para saber se eu estava comendo e eu dizia que sim, havia acabado de comer mas ela nunca acreditava, dizia sempre que eu não me alimentava direito, mesmo se eu comesse 5 vezes ao dia na frente dela. Por sua saúde ser sempre muito boa para sua idade eu não tinha aquele medo de perdê-la, mas sou grata pela maneira que foi, embora tenha sido uma tragédia e ache que poderia ter prolongado mais uns 10 anos. Afinal, seu maior medo era ficar presa numa cama de hospital, todos que a conheceram em algum momento a ouviram dizer “Deus me livre ficar presa numa cama, eu não aguento passar por isso não”.

Minha avó não era muito de beijos e abraços, sentia-se sufocada até com blusas e vestidos com uma gola um pouco perto do pescoço, mas lembrava do aniversário de todas as pessoas que conhecia e ligava para elas em seus dias logo de manhã para dar os parabéns. Ela não tinha palavras bonitas e enfeitadas para dizer, nem tinha paciência e muito menos papas na língua para isso, mas foi quem pegou minha outra avó pelo braço e a levou numa viagem depois que meu avô paterno faleceu, para espairecer e voltar a ter gosto na vida. Lembro que chegaram da viagem contando várias histórias engraçadas.

Eu não sei muito bem como foi sua vida, mas tenho certeza que não foi fácil e nem um mar de rosas, embora quem a conhecesse pudesse achar que foi tudo lindo afinal aquela mulher estava sempre de bom humor! Todos brincavam e pregavam peças com ela, assim como ela brincava e pregava peças com todos, e era tão divertido. Ela não podia passar perto de um rapaz bonito que logo me chamava e tentava me fazer sair com o tal “broto”, ela me ligava no trabalho para saber se eu cheguei bem e numa dessas vezes meu chefe que atendeu, ficaram conversando e no dia seguinte me deu chocolates e mandou entregar para ele “Pra ele Juliana, eu vou ligar pra saber se ele recebeu, hein”.

Por tudo isso acho que ela seja meu maior exemplo, porque eu tento ser hoje o que ela foi outrora: amante da arte, desapegada, brincalhona, humilde a ponto de ajudar sem pedir nada em troca e sem contar suas boas ações pro mundo, sem tempo pra tristeza porque não quer ser triste, viajante desse mundão e livre! Talvez enquanto ela esteve nesse plano terrestre eu não a visse com tanto orgulho porque tinha outra mentalidade, mas hoje eu sinto prazer de verdade em enxergar nela as qualidades que eu quero pra mim.

A pessoa mais jovem e good vibes que eu conheço tinha mais de 70 anos. E hoje aprendo com você, vó, que não precisa ser jovem para ganhar o mundo, que envelhecer não significa ser limitado, que eu tenho que ser autêntica, sempre doando meus sorrisos e colocando risos nos rostos alheios, correndo atrás do que me faz feliz e não do que os outros pensam que será melhor para mim. A vida é linda e podemos nos apaixonar por ela a qualquer instante, com qualquer idade e em qualquer lugar. O lema dela era “Tô nem aí pros outros, vou é ser feliz” e acredito que foi. Talvez me separar fisicamente de você tenha sido sim o mais difícil, porque a senhora sustentava meu mundo tanto quanto meus pais, mas do meu coração você nunca vai sair, pentelha. E espero que, se houver outra vida, você esteja lá para me receber quando eu partir daqui, porque não existe a possibilidade de um mundo sem você.

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