CONTOS: História de Verão

Quem me vê passando por esta cidade, nem imagina que foi aqui que meus dias de sol começaram. Claro, ele estava junto à mim, sempre apoiando meus projetos mirabolantes e fazendo de seus abraços meu lar. Faz tanto tempo, mas ainda guardo em mim uma nostalgia boa daqueles dias que pareciam sempre de verão, afinal eu estava tão acostumada com dias nublados, sempre sendo pessimista e duvidando tanto da minha capacidade. Lembro que mesmo em julho e nos dias de chuva, ele me fazia sentir calor. Era diferente da minha São Paulo, embora tão perto. Foram anos onde a solidão me abandonou, tempos em que eu sabia o que estava fazendo e não tinha muitas dúvidas. Até tinha vontade em conhecer o futuro, nem parecia aquela garotinha assustada e perdida no mundo que saiu às pressas de casa para ver se encontrava seu lugar. As coisas estavam sólidas e era fácil pisar naquele chão. Quando cheguei ali, fui à trabalho numa exposição com alguns queridos desconhecidos. Foi quando nos vimos pela primeira vez, mas quem puxou conversa comigo e as meninas foi seu amigo. Ele nem veio em nossa direção, estava muito entretido em uma conversa sobre o Eterno Retorno, fiquei sabendo depois. E meio que de repente aquele amigo que veio conversar conosco se tornou meu melhor amigo naquela cidade. Comecei a frequentar sua casa até que vagou um quarto e fui morar com ele. Tive que me adaptar aquela rotina de seus amigos entrando e saindo o tempo inteiro, principalmente na parte da manhã, afinal aqueles meninos sempre foram uma grande família. Eu nunca fui tão entendida das questões políticas e filosóficas quanto eles, mas sempre entrava em alguma conversa quando precisava calar uma ideia machista. E sem perceber acabei fazendo parte daquele grupo de uma maneira muito natural depois da mudança, me sentia muito acolhida e respeitada, e foi assim que nos aproximamos. De luais na praia sem música e fogueira até ligações para buscar bêbado numa festa, o amor começou a florescer. E cuidamos muito bem dele, Deus sabe que nunca tive um relacionamento tão saudável e leve e por isso no começo haviam momentos em que minha mente disfuncional queria criar conflitos, eu precisava do atrito para me sentir viva. Afinal, os momentos em que eu tive carinho, afeto e amor foram apenas após acidentes ocorrerem. Eu sempre soube que se eu precisasse de alguém, teria que ser após uma tragédia. Caçava brigas ou desastres com intuito de criar confusão para poder vê-lo me acalmando, para poder ouvir aquelas três palavras que tanto me faziam falta e ter certeza de que não estava mais sozinha. E cada vez que ele me segurava em alguma crise e dizia em alto e bom som “Eu te amo” fazia minha confiança melhorar. Com o tempo, enxergando ele ali nos dias de sol, já não tinha mais a necessidade do atrito e pudemos estabelecer, enfim, um relacionamento saudável. E foi tão gostoso que até acreditei mais em mim, consegui dar ideias para projetos no trabalho, comecei e terminei vários cursos, conheci boa parte do mundo. Eu precisava da certeza do amor para me reerguer, fazia tempo que não o sentia. E quando tudo entre nós precisou acabar eu estava tão gentil comigo mesma que meu amor próprio sustentou esse término. Digo com muita convicção de que precisava me apegar à ele para me desprender de meus monstros, pois quando nossos caminhos pediram estradas diferentes, nos separamos e não houve sofrimento. Entendi que nossas páginas agora eram cada uma de um livro distinto. Ele escolheu a si próprio e eu pude, enfim, me escolher. Foi o conflito menos doloroso e caótico que já vivi, foi a perda mais fácil de aceitar. Eu precisei muito ser amada e cuidada, precisava de alguém para limpar minha bagunça porque eu já estava me acostumando a poeira. Assim tive a paz de finalmente conseguir fazer uma escolha na minha vida, que fosse só minha por mim mesma. Desde que o conheci entendi que a vida não é só tragédia e não preciso estar o tempo todo debaixo de uma tempestade para conseguir carinho. Disse que não houve sofrimento, isso não quer dizer que passamos sem dor. Andando aqui pelo Leme sinto essa ponta de saudade, mas a brisa traz junto a aceitação. Só não posso deixar de indagar, se eu adentrar por essas ruas, será que ele esbarra comigo?

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