Além da Curva

Minha estrada começou a ser real muito antes que eu pudesse pensar nela. Eu estava andando de carro e acabou que ele não “sobreviveu” a uma das curvas da estrada. Ele capotou comigo, minha mãe, meu irmão e minha avó juntos, nos levando para o abismo.

E assim começou minhas referências à curvas e estradas da vida, minhas metáforas que eram tão literais. Eu fui a única sobrevivente, passei por uma mudança espiritual imensa. Imergi num mundo desconhecido por mim que viva dentro de uma bolha. Comecei a enxergar o mundo diferente e a querer seguir caminhos distintos. Por muito tempo hesitei em entrar numa estrada e a fazer parte dela. Eu sonhava com a estrada, sabia que precisava dela, mas não tinha coragem de enfrentá-la novamente.

Eu passei por um processo de mudança onde aquela garota que queria viajar por um período curto para lugares com mordomias e regalias, passou a se tornar parte das viagens, fazendo com que elas não fossem apenas períodos curtos da vida para relaxar e divertir, mas sim para aprender, entender, respeitar e transmutar. Eu entendi que queria mergulhar dentro de cada pessoa que passasse em minha estrada, além de, claro, mergulhar dentro de mim mesma. Entendi que eu precisava viajar para relaxar sim, mas também para lembrar de sorrir, para aprender e informar, absorver tudo que eu não sei mas arrogantemente penso saber. Precisava começar a encontrar beleza, história e inspirações tanto em lugares distantes como na esquina da minha casa.

Eu costumo dizer que vivi uma vida antes dessa primeira curva entrar no meu caminho e que renasci e vivo algo totalmente diferente após o acidente. Eu mudei da água pro vinho, não consigo nem imaginar que essas duas vidas estão ligadas e fazem parte de uma mesma linha temporal, porque não se condizem. É como se aquilo que eu já fui não fizesse parte de quem eu sou… é uma memória tão longe, distante e vaga.

E tudo começou por uma curva que me paralisou por um instante. Acho que a vida de todas as pessoas tem dessas curvas, algumas literais e outras não. São aqueles momentos que doem e nos fazem aprender na dor, que acontecem para que a gente cresça – se permitirmos – e descubra a nossa essência e, consequentemente, o que realmente nos faz feliz, assim como nos mostra a força que nem imaginávamos ter e que não nos deixa desistir, porque existe alguma coisa muito importante para ver e fazer nesse mundo. Acho que isso eventualmente deve vir para todos, as vezes de maneira sutil para alguns, sendo que para outros precise vir  com força total para chacoalhar de vez.

No meu caso eu estava muito acomodada em uma vida fácil e jamais sairia da minha zona de conforto se não fosse essa curva tão “cruel”. Não foi fácil… não é fácil, aliás, pois não acabou o aprendizado.

Eu digo que por pior que tenha sido tudo isso que ocorreu, sou mais feliz hoje por saber que não sei quem eu sou, mas estar mais perto de descobrir, porque o mundo me jogou pra fora da minha bolha e sei que se minha mãe estivesse viva teria muito orgulho da mulher que sou hoje, mesmo sem saber quem sou. E quer saber, ela está orgulhosa.

Por todas as curvas que aparecem e aparecerão em nossas vidas – afinal aqui já vieram outras depois dessa -, por todos os caminhos que não temos como fugir, que chegarão quer gostemos ou não, eu tô aqui pronta para me aventurar na estrada e saber o que mais ela tem para me ensinar e oferecer.

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