1. A Curva

Vinte de dezembro de dois mil e onze. Foi esse o dia em que minha bolha estourou e embora eu não lembre da maioria das datas, dessa lembrarei para sempre. Como um segundo aniversário, um renascimento.

Morava na cidade de Santa Isabel, interior de São Paulo, com meus pais e irmãos, acordamos naquela terça-feira e minha mãe (Mônica) precisava levar meu irmão (Gabriel) de 07 anos que portava Síndrome de Down ao médico na cidade de Mogi das Cruzes, assim, eu e minha avó materna (Aurora) fomos acompanhá-los para fazer compras de Natal no shopping. Minha irmã de 09 anos (Giovanna) e meu pai (Walney) ficaram em casa. Fizemos todas as compras, foi bem divertido, minha avó era bem alto astral e um pouco sem noção, queria me comprar um vestido vermelho de R$ 500,00 que eu jamais usaria, mas a convencemos de não comprar. Meu irmão ainda brincou bastante num playground que tinha para as crianças que estavam no shopping, assim foi até mais fácil de fazer as compras, afinal ele não parava quieto nas lojas.

No volta do shopping minha mãe, que estava com muita dor na bacia pois havia caído durante o banho uns dias antes, decidiu dirigir por um caminho mais rápido, uma estradinha que cortava caminho e não tinha tanto movimento como a Dutra. Lembro de estar tocando Skank na rádio, mas não consigo relembrar qual a música exata, acredito que era algo numa pegada mais do reggae e de minha mãe comentar “Que música gostosa para se ouvir na estrada” e logo em seguida dela gritar “Meu Deus!” e vejo o carro atravessando pela curva que deveria ter seguido, direto para uma ribanceira. Ainda lembro da primeira cambalhota no ar que o carro deu e de bater com a testa bem forte. Depois disso acho que desmaiei, lembro de acordar com os pés presos no carro, sem enxergar muito bem com um olho sentindo-o muito inchado e ouvindo minha mãe descer em minha direção. Ela me diz que tentou subir para pedir socorro mas não aparecia ninguém, como estava sangrando muito e cansada, acomodou-se numa árvore ali perto. Ouço meu irmão choramingando mas estou com o pé preso e não consigo olhar pra trás. De minha avó não ouço som algum, talvez estivesse desmaiada ainda. Aqui, friso que eu era a única pessoa usando cinto de segurança adequadamente, minha mãe colocava aquele objeto que afrouxa um pouco o cinto para não incomodar e minha avó recusava-se a utilizar o cinto durante sua vida inteira, já meu irmão estava na cadeirinha pois ainda não sabia se prender sozinho no banco de trás.

Eu sinto meu peito esmagado, como se meus pulmões estivessem comprimindo-se cada vez mais. Não sei dizer o tempo exato porque para mim pessoalmente passou uma eternidade ali sem conseguir respirar, porém chegam dois ou três homens (novamente minha memória não está ajudando) que não sei como nos viram lá embaixo, pois fiquei sabendo depois que nem marca na estrada o carro deixou. Eles falam comigo e minha mãe, passamos o telefone de meu pai, perguntam se conseguíamos aguentar mais um pouco e um deles pegou meu irmão no colo que continuava a chorar muito. Nesse tempo consigo desprender meu pé, mas fiz tanta força que pensei tê-lo quebrado (mas no final foi apenas uma torção). Fico deitada no banco da frente lutando para respirar enquanto eles acalmam meu irmão. Em nenhum momento consigo olhar para ele ou minha avó, não sei se foi a dificuldade do meu corpo no momento ou outra coisa, já fiquei muito mal por não ter dado uma última olhada neles mas talvez tenha sido melhor assim. A última lembrança é deles vivos, brincando no shopping.

Também não tenho noção de quanto tempo mais se passou, mas em algum momento ouço a voz de meu pai gritando “Filhaaaaaaaa” e correndo ribanceira abaixo. Ele deve ter chego com a ambulância porque logo em seguida me colocam numa maca e chego ao hospital achando que pararia de respirar a qualquer momento. Pelo jeito fui a primeira a chegar e depois de um tempo colocam minha mãe ao meu lado na sala. Os médicos fazem o procedimento de dreno do tórax que aliviou muito minha respiração. Minha mãe ao meu lado estava muito agitada e precisam dopá-la, essa foi a última vez que nossos olhos se encontraram nessa confusão toda, nunca esquecerei desse momento, nós duas deitadas em macas diferentes cruzando nossos olhares até que o dela se apagasse. Daí em diante fiquei sozinha em várias alas diferentes, ouvindo os médicos falarem sobre os assuntos mais diversos possíveis.

Minha recuperação física foi muito rápida, tive apenas que melhorar a respiração, engessar o pé direito, desinchar um olho e cuidar da queimadura do cinto de segurança que levo as marcas para sempre em meu peito. Antes de ir para a enfermaria soube que minha mãe estava na UTI e que meu irmão e avó foram para um hospital em São Paulo por conta da idade deles. Quando o dreno foi retirado e eu estava prestes a ir para o quarto do hospital, meu pai chegou com uma psicóloga e contou a verdade: minha avó já estava morta dentro do carro (pelo menos ela foi sem ficar presa numa cama de hospital, como ela sempre quis) e meu irmão veio a falecer minutos depois que foi posto dentro do helicóptero. Foi difícil mas creio que ali eu não senti direito o peso daquelas mortes. Gritei porque pensei que era isso que esperavam de mim, com uma psicóloga ali do lado. O luto eu sinto no dia a dia, na rotina que não é mais rotina pois não existem mais os personagens que ocupavam seus lugares nela.

Meu pai pediu muito para que eu pudesse ir para o quarto, assim pudemos passar a madrugada de Natal juntos. Não havia muito a ser dito, chegou um momento em que eu só queria estar sozinha pois naquele momento acabou o sentido desse dia para mim. Mas ele ficou lá, sentado, acordado a noite inteira caso eu quisesse conversar. Ele continuava visitando minha mãe na UTI e me falava dos planos para nossa casa, como teria que adaptar tudo para que ela pudesse ter um bom desenvolvimento, pois provavelmente usaria cadeira de rodas por um bom tempo.

Eu saí do hospital antes do ano novo, minha mãe permaneceu. Em janeiro de 2012 ela finalmente deixou a UTI e pude visitá-la. Passei direto por sua cama e continuei procurando por ela nas outras camas. Ela estava irreconhecível. Com a cabeça muito inchada, cabelos raspados por conta da cirurgia, um cheiro muito forte e ruim, foi bem difícil e chocante aquela cena. Ainda assim ela estava se recuperando e uma vez ela até tentou falar comigo, embora não tenha tido sucesso. Numa madrugada de fevereiro, em casa, o telefone tocou e meu pai atendeu. Assim que ele tirou o telefone do gancho eu já sabia o que estava acontecendo. Em minha mente, de forma clara, veio uma frase “SUA MÃE ESTÁ MORRENDO”. Ele desligou o telefone, eu levantei e fui até ele que me disse precisar ir ao hospital urgente. Eu enlouqueci, cadê a psicóloga nesse momento? Andava de um cômodo para outro falando, sussurrando, gritando, brigando, xingando, rezando. Ele pediu para que eu me acalmasse para não acordar minha irmã enquanto ele iria ver o que aconteceu. Liguei pra única pessoa que eu poderia ligar naquele momento, a Letícia e entre soluços e choros tentei contar o que estava acontecendo. Um tempo depois meus tios apareceram em casa me abraçando, já era minha confirmação. Dormi e quando acordei minha irmã estava ao meu lado perguntando o porquê tantas pessoas estarem em nossa casa e eu contei o que tinha acontecido. Ela só conseguiu dizer que “Nossa família está desmoronando”.

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