9. Liberdade

Eu sempre fui uma pessoa muito urbana, que odiava ir à praia, idolatrava o frio e queria ficar dentro de casa. Depois de ir ao Rio de Janeiro lá em 2012, os próximos meses foram importantíssimos na formação de uma outra personalidade dentro de mim. Descobri essa forma mochileira de viajar e principalmente, entrei em contato com os mochileiros. E de repente me vi a pessoa mais amante da natureza que existia. Queria buscar trilhas pra fazer, programava viagens para a praia, descobri um amor incontrolável por cachoeiras, percebi que não ter dinheiro não era empecilho para viajar e comecei a viver mais perto desse mundo simples, porém lindo ao meu ver.

O processo meio errado de desapego no qual falei, nessa questão foi ótimo, pois me deu suporte necessário para querer abdicar de uma vida totalmente consumista. Assim, junto com a raiva de fazer uma faculdade que já não conversava com a minha essência, criei uma barreira para trabalhos que nossa sociedade ditam como convencionais, esses de escritórios ou com horários inflexíveis. Eu descobri uma liberdade em mim muito confusa, até hoje, aliás, nunca consegui encontrar uma definição dessa palavra “liberdade” que me desse uma totalidade do que eu vinha seguindo. E pensando bem, liberdade não pode mesmo ter definição, vai totalmente fora de encontro com o que ela é. Essa palavra precisa estar solta, sem nenhum compartimento. Assim como eu me sinto. Tudo que tenta me limitar, me reduzir, que me faz cortar um pedaço meu para me encaixar, acaba me afastando. Seja no âmbito profissional, quanto no pessoal.

Naquela época acabei me distanciando muito da maioria das pessoas que eu conhecia, talvez porque nem eu mesma entendesse como encaixar tudo que eu tinha na minha vida com aquilo que eu gostaria de ter a partir daquele momento. Até hoje tudo isso é muito confuso e até se perdeu, mas é historia para um outro momento. Eu acabei me desligando muito das pessoas que eu genuinamente amava, muitos não me entenderam e foram embora. Outros respeitaram meu espaço, meu “jeito Juliana de ser”. Na época eu não me ligava muito nas relações interpessoais, nunca pensei em cultivar as pessoas que entravam ou mesmo as que já estavam na minha vida. Eu realmente não sei se isso teve a ver com o lidar com tantas perdas de uma vez, porque aqui entre nós eu sempre fui mais egoísta, logo não sei se esse meu comportamento teve a ver com a tragédia que eu havia vivenciado ou com minha personalidade aflorando.

Querer me desapegar acabou trazendo a tona essa individualidade que eu achava ter e mais, acabou por me insensibilizar muito. Eu já não me importava com quase nada, com quase ninguém. Quer dizer, eu sabia que eu amava muitas pessoas, o sentimento sempre esteve presente, mas eu estava incapaz de parar meu tempo para mandar uma mensagem perguntando se a pessoa estava bem, ou apenas responder alguém que queria saber como eu estava. Nunca foi intencional, eu realmente me importava com as pessoas, mas criei uma bolha onde eu não precisava estar o tempo todo conversando com alguém para precisar gostar dela.

Eu não queria precisar de ninguém. Eu não queria dar satisfação a ninguém. Eu não queria amarras. E cá entre nós, eu estava feliz. Eu parecia ter encontrado um propósito na vida, eu sabia o que eu queria e tinha conceitos prontos para pôr em prática. Não sei bem se eu teria conseguido, afinal, o que eu queria era muito diferente de quem eu era ainda. Eu sabia toda a teoria da vida que eu queria levar, tinha frases feitas muito bonitas que as pessoas admiravam quando eu falava. Mas na prática eu estava anos luz atrasada com meus comportamentos egoístas e individualistas. Eu estava distorcendo o desapego e a liberdade.

E precisou vir um outro baque, daqueles que a gente nunca espera depois de uma tragédia, para eu entender que a vida não está de brincadeira e que se eu queria tudo aquilo que eu enchia a boca pra dizer, eu teria que provar que sou capaz de bancar essa vida. Você quer liberdade? Toma liberdade! Ela não é como você imaginou? Pois bem, reveja todos os seus conceitos.

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