8. Epifania

Faz tempo que escrevi o último texto. Nele falei sobre como uma conversa despretensiosa com um amigo me fez saborear a vida mochileira e entrar mais em contato com pessoas que viviam desse modo. Porém, existe um fato que realmente mudou minha percepção e filosofia de vida, que me fez realmente querer mudar a minha essência. Eu era uma pessoa muito conservadora, adorava viver no luxo, sempre muito preocupada com o que mostrar aos outros, fechada em uma bolha cor de rosa cheia de purpurina onde coisas ruins jamais aconteciam. Então como eu fui me interessar por um estilo de vida tão diferente do conforto que eu estava acostumada e que sempre me proporcionaram? Porque eu resolvi ouvir com tanta atenção aquele amigo e procurar sobre esse estilo de viagem, de vida?

Aqui vai ficar um pouco confuso e talvez bagunçado, me perdoe amigo leitor. Essa parte é confusa até mesmo para mim. Talvez você pense, inclusive, que eu já não estou sã e comecei a alucinar de vez. Acho que para não julgar esse texto, você precisa entender e aceitar a espiritualidade, não sei bem. Tentarei explicar como tudo se desenrolou na minha cabeça, quando eu achava que a vida se desenrolava de um jeito e quando eu percebi que não acontecia nada, de jeito nenhum.

Tenho a memória de um belo dia ter visto nas redes sociais de um colega um lugar diferente de tudo que eu já havia visto e que, surpreendentemente, despertou muito o meu interesse. Era um tipo de abrigo no alto de uma montanha, bem afastado da cidade, onde as pessoas dormiam todas juntas direto no cimento pois não havia nenhum tipo de luxo ali. Elas se alimentavam sempre compartilhando a comida, usavam roupa de frio e estavam, provavelmente, em algum canto da América do Sul. Só que quando eu fui entrar no Orkut desse amigo que eu achava ter visto essas fotos, não encontrei absolutamente nada. Não havia nenhuma referência sobre este lugar em nenhuma parte. Até perguntei para esse colega e me passei por louca, pois ele não sabia do que eu estava falando. Mas como isso poderia ser alucinação minha se eu sabia descrever exatamente como era esse lugar e tinha total certeza de que o vira em fotos na rede social de um amigo?

Isso começou, claro, a me incomodar muito (confesso que até hoje incomoda), fui atrás dos perfis de todos os meus amigos e amigos de amigos possíveis para tentar encontrar algum vestígio desse lugar, porque eu tenho certeza que vi esse espaço. Mas nada! Caramba, eu sei exatamente como esse local é! Foi aí que percebi, dentro da minha crença (que não precisa e nem deve ser a sua), que eu poderia ter encontrado esse local em outra vida ou então tê-lo visitado em um tipo de projeção enquanto dormia, vindo para mim, depois, em forma de fotos em redes sociais para que eu assimilasse melhor essa ideia. E esse lugar fez tanto sentido na minha vida, parecia que era parte de mim, um lugar sagrado apenas para o meu ser e que me fazia bem só de lembrar, além de me impulsionar e me deixar desesperada precisando encontrá-lo.

Será que é minha casa no plano astral? Eu não sei, mas não podia morrer aqui sem ter essa certeza, pois se esse canto fosse aqui do planeta Terra, eu precisava encontrá-lo a todo custo. Só que ele era totalmente diferente de mim, eu jamais me encaixaria ali, então precisei começar uma jornada para simplificar a vida. De ter e possuir o mínimo de coisas possíveis, de entender mais o outros ser humano que era diferente de mim, de olhar as coisas boas no mundo mas também saber apontar as ruins, de encontrar finalmente um propósito na humanidade e não no dinheiro, viver o coletivo, de saber qual era o meu posicionamento perante acontecimentos sociais. E pensando hoje, aqui, talvez o dia que eu estiver em total harmonia com tudo isso, eu encontre esse meu lugar (que talvez possa até nem ser algo físico, mas dentro de mim). Digo meu lugar porque é impossível ter uma conexão tão forte com algo que você nem conhece, ou não lembra de conhecer, e isso não ser uma parte de ti.

E eu tinha uma pista, dentro da minha mente, que seria na América do Sul, então comecei a querer entender mais como eu poderia chegar em um lugar que poderia estar em qualquer lugar. Eu pesquisei muito mas nunca encontrei nada, mas sempre soube que eu tinha que sair, buscar e encontrar esse pedaço que tanta conexão fez comigo. Nessas pesquisas fui me familiarizando com o termo mochileiro. Foi assim que eu realmente comecei a planejar meu mochilão pela América do Sul, com esse propósito de encontrar algo que estou buscando mas nem sei o que é, onde está e se é real ou visual. Eu precisava buscar o meu lugar, que aqui dentro de mim eu sei que existe, só não tenho as coordenadas geográficas.

Talvez eu ainda vá encontrar esse espaço que acredito muito ser meu, mas hoje tenho mais serenidade para entender que tudo tem seu momento e não era apenas largando todas as pessoas do meu convívio e queimando todos os meus pertences materiais que eu me tornaria livre.

A liberdade, talvez, seja utópica. Ou apenas demanda muito menos esforço do que colocamos. Pode ser que tenhamos tanto nos acostumado a andar em círculos que nós mesmos complicamos esse ideal. Ou então ser livre seja mesmo impossível, enquanto colocarmos nossas vidas nas mãos de outros homens.

Pensando hoje aqui, ao revisar esse texto, talvez esse local nem seja de fato um lugar físico, e sim uma ideia em minha mente para que eu pudesse despertar. Pode ser que eu nunca encontre o lugar físico, mas tenho certeza de que posso encontrar o que a ideia dele me fez sentir. Talvez, até, esse lugar seja dentro de mim, que eu preciso encontrar uma forma de acessar.

Já disse em outro texto que me perco escrevendo, minha mente fica nadando por águas totalmente perturbadas, mas quero terminar esse aqui dizendo que esse capítulo é uma bagunça porque essa historia é bagunçada. Eu tenho a memória dessa conversa conversa com um amigo sobre um filme que foi importante para mim e tenho a memória dessa visualização de um lugar que nem sei se existe mesmo, mas que foi a chave que me conectou à um mundo totalmente diferente e fora da minha realidade, e que eu precisava (preciso) viver.

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