6. Desapegar

Depois de tantas mortes significativas, eu precisava de uma maneira para me manter sempre firme e descobri um propósito na religião, buscava muitas conversas espíritas com a madrinha da minha irmã, fazia meu pai me levar em centros espíritas sempre que podia, tentava ler e buscar palavras que me confortassem mas fizessem sentido na minha realidade. Nunca fui um exemplo dentro de uma religião. Sim, fui batizada, fiz catequese, mas parei por aí, igreja nunca foi meu forte. Também não era minha fraqueza, ela para mim apenas não fazia tanto sentido, não conversava diretamente comigo. Já o espiritismo me trouxe muito aconchego, afinal fazia sentido certas explicações naquele meu momento. Ainda mais porque eu sentia coisas inexplicáveis. Foram muitas buscas, me tornei muito mais serena nessa questão e aceitei muito fácil a perda física de minha mãe, meu irmão e minha avó. Claro, entender e aceitar a morte não quer dizer que não haveriam sequelas, mas isso podemos conversar em outro tópico.

As pessoas ao meu redor me enxergavam como alguém espiritualizada, que sempre compartilhava frases budistas e ensinamentos de Chico Xavier. Foi nessa época que me deparei com uma frase de Buda “You only lose what you cling to” – numa tradução bem tosca “Você só perde aquilo ao que você se apega” – e comecei a trabalhar esse conceito de desapego dentro de mim, inclusive tatuando essa frase. Distinguir o que era posse, o que era apego material do apego espiritual ainda é algo que estou trabalhando, mas naquela época, eu que me achava tão dona de mim, que tinha certeza de que sabia quem eu era, me senti a pessoa mais desapegada do universo. Já não ligava muito para nada, meio que desliguei algumas funções humanas, o que em parte foi bom para realmente me desprender de assuntos desnecessários ou que não teria remédio, mas hoje vejo que eu não estava apenas trabalhando o desapego, eu confundia isso com desinteresse e descaso. Deixei de estar perto de muitos amigos em nome da máscara do desapego, e ainda dizia “Eu sou assim e lide comigo quem puder”. Mesquinha e com um leve ar de superioridade.

Só fui entender que eu estava absorvendo todo esse conceito de forma errada o dia em que fiz meu pai me levar até São José dos Campos para uma consulta com uma médium de psicografia. Ela realmente era genuína em seu trabalho, tenho certeza. Chegamos cedinho para sermos os primeiros a passar com ela. Fomos os segundos. Entramos em uma sala e ela me disse “Nossa, eu já te vi em outro lugar”, mais pra frente ela entendeu que não era a mim que ela tinha conhecido, mas sim minha mãe, que estava projetada (não sei a terminologia correta, desculpe) na sala antes de eu chegar naquela casa. Tudo que ela falou e fez, me fez entender que aquilo não era brincadeira, inclusive meu pai, que duvidava de tudo, amoleceu. Ela terminou de atender todas as pessoas e no final do dia iria psicografar e entregar as cartas. Na minha cabeça minha mãe iria falar muito mais coisas para mim, me dar conselhos, alimentar meu ego, mas não foi isso que aconteceu. Eu fiquei frustrada e não quis nem ver mais aquela carta na minha frente. Eu ainda era a menina mimada que todos tinham que fazer sua vontade. Não queria admitir isso, mas eu não tinha evoluído, apenas sabia conceitos novos. Fiquei emburrada com o “além” por não ter acariciado minha personalidade, dá pra entender o absurdo disso?

Mas eu me sustentava nessa ideia de ser humano desapegado e good vibes. Hoje tenho até um pouco de preguiça desses termos e de quem se define assim, por pura implicância minha com quem eu era. Só não pense que eu joguei esse conceito fora, atualmente eu acredito nesse desapego mas de uma forma totalmente contrária a de antes (não quer dizer que esteja certa, pode ser só outra armadilha do ego que no futuro descobrirei, mas tudo é evolução, não é mesmo? Um degrau de cada vez).

E no que você acredita hoje Juliana? Que nada é meu, cada pessoa pertence a si mesmo e ao universo. Tudo é nosso, até que a roda gigante da fortuna gire, e aí o equilíbrio do mundo já está instável novamente. E o apego? Justamente em querer que tudo permaneça estático, num universo em que nada é harmonioso. Ao mesmo tempo em que tudo preenche seu papel em perfeita harmonia. Papo de doido não é mesmo? O que tento dizer é que nós sabemos perfeitamente que nada dura, que nada está aqui para sempre e mesmo assim queremos ter controle da eternidade. Você não precisa gostar do que aconteceu, mas aceitar e conseguir viver com isso sim. Isso é o desapego. Amo minha mãe, meu irmão e minha avó mais do que tudo nesse mundo junto com meu pai e minha irmã, é um saco não tê-los fisicamente presente, dói olhar pro lado procurando um colo e não ter nenhum pra te dar conforto e carinho, mas a vida aconteceu desse jeito e eu não posso mudá-la. E tudo bem. Bola pra frente que ainda tem muito jogo pra acontecer e eu quero estar em campo.

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