5. Diploma

Em vários momentos dos meus textos ressaltei como não curtia o curso que estava fazendo na época da faculdade, assim como quem me conhece pessoalmente já me ouviu lamentar por ter feito 05 anos de algo que não gostava e me viu em vários momentos revirando os olhos ao falar de Direito. E hoje quero minuciar mais todo esse sentimento e processo, pois aprendi que escrevendo eu abraço minhas sombras e fico livre pra enxergar outras partes minhas com clareza.

Desde quando eu era criança ouvia de pessoas adultas “Nossa, a Juliana tem que fazer Direito, olha como ela adora ler!”. E realmente eu devorava livros e mais livros, ao invés de brinquedos e roupas sempre pedia livros de presente. Aquela ideia sempre pairou em minha mente e como sou uma pessoa muito influenciável (estou batalhando pra deixar isso de lado agora que tenho a percepção) quando estava prestando vestibular disse para minha mãe “Quero fazer artes cênicas” e ela rebateu que eu já fazia um curso de teatro sendo melhor para eu fazer algo que me desse rentabilidade e segurança no futuro. Daí a primeira coisa que me veio no pensamento foi Direito e me matriculei no curso.

Sempre vivi dentro de uma bolha, meus pais zelaram demais por mim e isso não foi uma coisa boa (entenda não estou culpando ninguém de nada e sou muito grata pois todo o amor que sinto falta hoje é resultado de todo amor que sempre recebi deles). Sempre tive educação, saúde e conhecimento histórico e científico, mas saber lidar com a vida de verdade, crua, nunca soube até precisar me tornar – como Cazuza disse – uma maior abandonada. Eles me preparam para a escola, faculdade e testes, mas nunca para sobreviver sozinha no mundão – era a menininha da mamãe, princesinha do papai que precisava ser sempre protegida e abafavam tudo que acontecia de cruel ao meu redor.

Assim, cresci sendo uma pessoa de pouco pulso firme e acatei a decisão de minha mãe, que na época eu pensava ser minha escolha também. Ela ficou muito feliz, na formatura do colégio (ela dava aula na mesma escola que eu estudava) a vi contando para todos seus colegas e meus professores “Minha filha será Doutora”. Mal sabia ela! E eu também. Pois quando entrei na faculdade foi muito bacana, prestava atenção nas aulas, anotava tudo, encontrei inclusive um estágio maravilhoso com pessoas incríveis. Achava que sabia exatamente onde era meu lugar nesse mundo. Não me tornei amiga da disciplina que achava que iria gostar mais, Direito Penal, mas descobri um prazer inenarrável no Direito Civil. Estava feliz sim, acomodada. Até o acidente.

É incrível como tudo mudou. Aquele prazer sumiu, mal conseguia assistir uma aula, minhas faltas eram 30/30, meu desinteresse ficou nítido e minha melhor amiga pediu para que eu voltasse a estudar no período noturno assim ela ficaria de olho em mim e me ajudaria a ter um pouco de foco pra estudar. E se não fosse pela Letícia, eu não teria passado pelos últimos 03 anos de curso, ela ficou no meu pé todo santo dia nesses anos, me mandava mensagem pontualmente as 17 horas perguntando se eu estava indo pra faculdade ou as 23 horas chamava minha atenção dizendo que perdi conteúdo importante mas que me enviaria no final de semana. Meu pai via meu desânimo e comentei como eu gostaria de interromper o curso, mas tinha um fantasma comigo que queria mostrar para a Dona Mônica que eu era capaz de terminar algo, queria dar orgulho pra alguém que nem estava fisicamente comigo, alguém que provavelmente, se existe outro mundo, entendia agora todas as minhas razões de desistir. E meu pai pediu para que eu me formasse, apenas isso, “Depois joga o diploma na gaveta e nunca mais olha pra trás”, ele me disse.

E mais uma vez, fraca e influenciável, eu cedi. Terminei a faculdade aos trancos e barrancos, saturada de conversas jurídicas e perdida profissionalmente. Nesses anos após o acidente cada livro que eu pegava para ler era um peso que se instalava em minhas costas. “Eu deveria desistir”, ouvia em meus pensamentos mas já estava indo para o quarto ano. “Eu deveria desistir” mas já estava indo para o quinto e último ano. “Eu deveria desistir” mas já estava apresentando minha monografia. “Eu deveria ter desistido” mas já era tarde demais, estava me arrumando pra festa de formatura. O meu maior arrependimento não foi ter começado o curso, foi o de não ter me escutado quando pensei em parar. Eu acredito no Universo e sei que deveria ter ido para a faculdade ali da Mooca, vivido muitas coisas que só poderiam ter acontecido por lá e conhecer pessoas que de alguma maneira também foram parar lá. Jamais sobreviveria aos meus infernos sem uma dessas pessoas, mas eu já a tinha conhecido, tudo bem trancar o curso.

Eu fui cabeça fraca, cedi a vontade de outras pessoas, me deixei levar por um ideal que nem existia mais. “Ah, mas pelo menos você tem um diploma Ju” – quase todos vocês já me falaram isso uma vez na vida. Um diploma que está criando poeira em algum lugar dessa minha casa. Um diploma que não poderia ter menos utilidade, que não serve pra nada pois a raiva que sinto só de lembrar dele me consome por inteira. Não cinco mas três anos foram perdidos sim, porque mais uma vez fiquei embaixo das asas dos meus pais, que me influenciaram a ter conhecimento técnico de algo que eu me recuso a usar, enquanto a vida passou e eu me encontrei um belo dia sozinha com a minha irmã, sem nunca ter feito compras pra casa num mercado, sem nunca ter visto a cor de uma conta de luz ou telefone, sem nunca ter cuidado de mim mesma quanto mais de outra pessoa, sem nunca ter visto produtos de limpeza de cozinha e banheiro, sabendo apenas fazer macarrão e Toddy. Nunca me senti tão pequena na vida, me vi diminuindo e chegando ao tamanho de uma formiguinha, enquanto o mundo ao meu redor se tornava gigante e inalcançável.

Não adianta todo conhecimento do mundo, ser inteligente sem esperteza, sem destreza, é inválido. Eu estava presa e não percebia que era dentro de mim mesma, afinal, desistir do curso dependia apenas de mim, e eu não achava que era capaz, me sentia com obrigações à memória de minha mãe. E com todo amor e respeito do mundo: a memória de minha mãe que se fodesse*, eu tinha que ter tomado as rédeas da minha vida no mesmo instante que quis faltar na faculdade por falta de interesse, porque nem meu pai e nem a memória da Dona Mônica estão aqui pra me defender de um mundo que por tanto tempo eles me esconderam. E nenhum dos dois sentem a raiva que eu sinto por ter sido tão obediente, tão estúpida e tão medrosa a vida toda.

* eu sempre mostro meus textos pra Letícia antes de publicá-los e quando ela leu essa parte achou um pouco forte a maneira que eu me expressei embora conseguisse ouvir a minha voz dizendo exatamente assim e entendesse o subtexto. Como prefiro deixar sempre esses textos com a intensidade do que eu estava sentindo no momento que os escrevi, faço aqui uma explicação pros que não sabem interpretar um texto: não odeio minha mãe nem a imagem dela (outros textos aqui podem mostrar isso) porém não endeuso ninguém apenas porque morreu e acredito que eu deveria ter sido mais rígida e me escutado mais, ter acreditado mais em mim mesma, ao invés de querer agradar alguém que nem nesse plano terrestre estava mais

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3 Comentários

  1. sou mãe, peco em muitas coisas eu sei, nem sempre o tudo é tudo, sempre explodo com meus filhos com minhas verdades, mostro que o mundo não tem dó, como dou amor, digo verdades duras de se ouvir,secuida!!

  2. Escrever bem sempre soube desta sua capacidade, parabenizo por ser você em cada parágrafo,continue nesta linha da sua verdade,assim irá relatar o real..Estarei esperando os próximos textos, que com certeza ricos como estes..Ainda encontrará alguém que irá publicar estas suas obras.Não pare. BJOS

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