4. Gravidez

Esse é um texto que eu não estava planejando, ia passar mais pra frente a história mas sei lá, estou aqui digitando as palavras e tentando encontrar um começo. Preciso dizer que eu não sinto muita coisa em relação à isso, embora tenha raiva do ocorrido as emoções e sentimentos não me vem na pele sabe?

É muito interessante como a mente humana funciona. Desde que comecei a faculdade, saia praticamente todo final de semana para festas e apesar das loucuras, sempre correu tudo bem. Exagerava de vez em quando na bebida e no máximo caia no chão da festa ou beijava mais de uma pessoa. Uma das festas que tinha na faculdade, eram os Jogos Universitários de Direito, que era uma bagunça muito legal. Eu adorava esportes, não era tão boa assim mas me colocavam pra jogar tudo, pois não tínhamos jogadores suficientes. E eu jogava o dia inteiro, chegava no hotel e me arrumava em meia hora porque a noite sempre tinha festa. Chegava da balada seis da manhã e as sete já tinha jogo. E assim seguia os quatro dias de JUD.

Teve um JUD em específico que me marcou muito, embora eu só tenha entendido tudo que aconteceu anos depois. Essa história sim ninguém da faculdade sabe, apenas os amigos mais distantes e nada a ver com esse mundo. Tinha vergonha de contar, acreditava que eu era erradíssima e deveria viver com a culpa para sempre. Hoje eu tenho plena convicção de que não foi minha culpa embora ainda não consiga dar nome aos bois.

Voltei de uma festa e fui pro hotel, estava no quarto de um rapaz. Estávamos bêbados e drogados, rolou uma tentativa de transa mas não deu certo e ele saiu do quarto. Lembro de um amigo dele entrando antes dele sair e a próxima coisa que eu recordo era de estar no banheiro transando com esse amigo. Não lembro de consentimento, não lembro de sair da cama e ir para o banheiro. Do banheiro o próximo flash que eu tenho é dele me levando pro meu quarto e minha amiga abrindo a porta. Eu dormi e nunca mais toquei nesse assunto. O curso de Direito todo “soube” que eu transei com o outro rapaz que até tinha rolada uma tentativa, o que na verdade não aconteceu, mas ele deve ter sentido a necessidade masculina de dizer que sim. Sobre o outro que, hoje eu sei, me estuprou, ninguém nunca soube, eu creio. Aquilo sempre ficou em mim guardado, olhava pra ele na faculdade e me sentia culpada por ter exagerado na bebida e ser tão puta assim. Mas a verdade é que mesmo que houvesse consentimento eu não sou puta por isso, aliás, poderia sim ter transado com o outro, mas com esse eu não faço a mínima ideia de como aconteceu.

E aí que a mente entra em colapso, pois quando eu voltei do Rio de Janeiro, enlouqueci achando que estava grávida. Eu menstruava e nunca tinha feito um teste de gravidez, mas eu tinha certeza de que estava grávida. Minha mente não me deixava dúvidas quanto à isso. Eu não me concentrava em mais nada, minha amigas pediam pra eu fazer o teste e eu morria de medo do resultado. Eu estava sentindo diferenças no meu corpo e isso me aterrorizava. Procurei métodos abortivos, lia sobre o assunto e finalmente decidi fazer o teste de farmácia. Deu negativo. Mas eu continuava louca, me preparando pra contar para o meu pai.

Meses passaram e minha barriga não crescia, fui me acalmando e acabei nem fazendo teste de sangue. Na época pensei que minha mente estava me punindo por ser tão vagabunda. Hoje eu não faço ideia o porquê de tanta loucura, talvez seja realmente apenas isso, sou doida. Ou então eu precisava enlouquecer um pouco, perder a noção da realidade, chorar, me preocupar com algo que não existia. Eu ainda não sei. Mas faz bem colocar essas situações pra fora, porque por muito tempo tudo isso ficou engasgado em mim e eu me achava a pior pessoa do mundo. E talvez eu seja, mas não por isso. Não por alguém se aproveitar de um momento vulnerável.

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