3. Ir além da curva

Depois do falecimento de minha mãe, uma professora e diretora de teatro me chamou para fazer uma oficina com ela a nível de experiência profissional, e eu aceitei. Eram ensaios noturnos, por isso mudei de período na faculdade (cursava o terceiro ano de Direito) e comecei a estudar de manhã. Fazia estágio há um ano e realmente gostava do ambiente de trabalho, pois além de me dar bem na área que estava trabalhando, contava com pessoas extremamente humanas, mas resolvi sair do escritório. Eu já não estava me doando e prestando atenção ao trabalho, embora adorasse as pessoas eu já estava de saco cheio do curso. Sentia que precisava de um tempo pra mim, mesmo que eles me dessem todo o tempo do mundo com um lugar para voltar.

Chegando as férias do meio de ano meu pai e minha irmã foram para casa da minha avó no litoral sul de São Paulo – Itanhaém – onde sempre passamos as férias desde que nasci. Eu também iria para lá logo que acabassem minhas provas. Não sei descrever o que aconteceu, mas no dia que minhas aulas acabaram, voltei para casa, entrei no Google e fiquei pesquisando cursos de teatro no Rio de Janeiro, encontrando uma oficina de TV e Teatro em Copacabana. Assim, não pensei duas vezes, aliás acho que não pensei nem uma vez se quer, apenas me inscrevi no curso que começaria dali 03 dias, arrumei hospedagem e comprei a passagem de ida pra embarcar em 02 dias.

Liguei para meu pai e contei que meus planos mudaram, ele achou que era brincadeira mas quando entendeu que não era, disse que estava voltando pra casa para conversarmos. Minha madrinha, que estava na praia com ele, ficou nervosa e também achou que eu estava doida, me ligando pra tentar me convencer a não ir porque eu não conhecia ninguém lá, nunca tinha viajado sozinha, estava me precipitando e era um local muito perigoso pra eu ir sozinha, e além do mais eu vivia dizendo que nem gostava do Rio de Janeiro!

Quando meu pai chegou expliquei pra ele que iria sim, ele tentou entender minha impulsividade e eu acabei “mentindo” para tranquilizá-lo, dizendo que era um ótimo curso para meu currículo, que seria uma oportunidade única na vida e blá blá blá. Até hoje não sei o que passou na minha cabeça, acredito, inclusive, que não tenha passado nada por ela, simplesmente aconteceu no automático porque não existe explicação lógica para essa decisão. Tudo aconteceu exatamente como descrevi: cheguei em casa, liguei o computador, pesquisei e fiz as reservas. Não houve pensamentos, não teve sentimentos, nada. Era quase como uma tarefa doméstica do tipo lavar a louça, arrumar a cama. Você não precisa parar para pensar o que fazer, apenas vai lá e faz. E eu tive esse grande impulso, que as vezes acontece com essa minha mente desequilibrada que vive pedindo por mudanças.

E assim parti pra cidade maravilhosa, não sem antes perder o vôo por esquecer o RG no carro e gastar um rim em outra passagem. E desse jeito meio avoado foi que eu passei do ódio ao amor por essa cidade que vibra alegria, que afirmo ter me devolvido o sorriso que estava ofuscado por uma escuridão que eu alimentava todos os dias, mesmo que involuntariamente. O que encontrei ali foi de revigorar um coração murcho e apático. Claro que indo sem responsabilidades a história muda um pouco, mas teve que ser assim.

Eu fui… sem saber o que iria me esperar, quem iria me aguardar e o que encontraria no caminho. Estava tão sem ansiedades que acabei nem levando, por exemplo, roupas e sapatos para sair, pois naquela época adorava sair de vestido curto e colado no corpo acompanhado de um belo salto alto, precisando sair para comprar essas coisas. Eu só queria fazer o curso e espairecer sem nenhum conhecido por perto, sem nenhuma história, sem nenhum passado batendo na porta. E fiz um curso maior do que esperava, apenas porque permiti vivê-lo, um curso de como voltar a sorrir e ver prazer na vida. Encontrei amigos maravilhosos, pisei em lugares que nem sabia da existência, acordei cedo pra correr no calçadão, perdi a hora porque dormi demais, revi um seriado que adorava, beijei na boca, fiquei bêbada, dancei, aprendi novas técnicas de atuação, ri e esqueci de sofrer. Foi um momento especial demais. Eu explodi, mas explodi colorido, em borboletas, flores e arco-íris.

Estive livre aqueles dois meses, sem rótulos da pessoa que eu era e sem o peso da pessoa que eu deveria ser dali pra frente. “Você precisa ser forte pelos outros, tem mais responsabilidades agora” – pessoas que eu mal conhecia vivam repetindo. “Você agora é exemplo pra sua irmã” – meus parentes diziam. Mas perai, como eu poderia ser qualquer coisa pra qualquer pessoa se eu estava quebrada? Eu não podia errar na frente das pessoas que eu conhecia, então estar ali rodeada de estranhos foi salvador.

E hoje sou completamente apaixonada pela cidade, que pode ser “mais ou menos” pra muita gente, que muitos podem reclamar, mas que faz todo o sentido pra mim quando converso sobre um lar. Cada vez que passo por lá um sorriso gigante estampa em meu rosto de forma inevitável, eu me transformo. Aliás, uma vez fui de carro pra Arraial do Cabo e passamos pela capital do RJ, minha amiga virou e me disse “Nem precisa dizer o quanto você gosta daqui né, sua expressão de felicidade diz tudo”.

E mesmo que nunca mais eu encontre todas as peças que se quebraram dentro de mim, eu descobri essa gana de ir atrás de preencher esse vazio de formas diferentes, coloridas e tão bonitas quanto as anteriores.

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